Camada Zero Tecnologia

O carro freou antes de mim: 10 mil km de Renault Kardian

Este blog já ensinou a descobrir se um controle remoto está funcionando usando a câmera do celular e a recuperar banco de dados corrompido de SPED Fiscal. Então review de carro cabe aqui sem pedir licença, desde que o assunto seja o que me interessa: tecnologia.

São seis meses de uso, 10 mil quilômetros rodados e uma viagem curta em estrada, na versão Iconic (2026). Dá para falar com alguma propriedade.

E aviso logo: isso não é review de carro. Não vou falar de acabamento, de motor, de porta-malas nem de como ele se comporta em curva. Vou falar do que tem tela, sensor e software dentro dele.

A cereja do bolo: a frenagem automática de emergência

Começo pelo que de fato me impressionou.

Um motociclista ameaçou entrar na frente do carro. Eu estava atento, eu vi o motociclista, eu já estava indo para o freio. O carro freou primeiro que eu.

Não foi um toque tímido no pedal para avisar. Foi freada. E a sensação, nos dois segundos seguintes, foi uma mistura de susto com surpresa. Ponto para o carro.

E se você quiser ver o sistema agindo sem depender da minha palavra, o Latin NCAP gravou. No vídeo oficial do teste do Kardian, a partir dos 3 minutos e 5 segundos, é o carro freando sozinho diante do obstáculo.

 

Vale o contexto de quem mede isso com método. Em novembro de 2025 o Kardian virou o primeiro Renault cinco estrelas no Latin NCAP, com 83,41% em proteção de ocupante adulto, 82,92% em ocupante infantil, 72,96% em pedestres e usuários vulneráveis, e 83,78% em assistência à segurança, que é justamente a nota dos sistemas eletrônicos. A frenagem automática para usuários vulneráveis das vias tirou pontuação máxima.

A direção assistida que não dirige

Esse é o recurso que mais gera confusão, então vamos combinar o que ele é.

Você define um limite de velocidade e o carro acelera e desacelera sozinho, mantendo distância do veículo da frente. Em estrada, isso é excelente. A viagem fica consideravelmente menos cansativa, porque o pé direito sai de cena e sobra atenção para o resto.

Agora, ele dirige sozinho? A resposta curta é NÃO. Longe disso.

O sistema trabalha de 25 a 160 km/h e entra em espera abaixo de 20, devolvendo o carro para você. Na prática é exatamente o que eu sinto no trânsito urbano: a fila anda devagar, ele desiste, e quem assume é o motorista. E a frenagem desse modo não é frenagem de emergência: o manual da própria Renault diz que ela usa cerca de um terço da capacidade de freio. Para parada brusca, quem manda é você ou o AEB (Autonomous Emergency Braking ou Frenagem Autônoma de Emergência).

O ponto negativo mora aqui: não existe assistente de permanência em faixa. Em nenhuma versão. O carro cuida da velocidade e da distância, mas a direção é 100% sua. Quem já dirigiu algo com manutenção de faixa sente falta na hora.

Sou obrigado a dizer que isso é coerente. Meia assistência bem feita é melhor que assistência completa mal feita. Mas é uma lacuna.

O freio de mão que não dá para esquecer

Parece bobagem e é a minha funcionalidade favorita do carro.

O freio de estacionamento é eletrônico, acionado por um botão. Ou seja, virou freio de dedo (dentro da minha cabeça foi engraçado, se pra você não foi, ria por piedade). Mas o que vale mesmo é a automação em volta dele:

  • Carro parado e você tira o cinto de segurança? Ele aciona.
  • Você desliga o carro? Ele aciona.

Resultado: é impossível esquecer de puxar o freio de mão. E quem nunca?

Esse é o tipo de recurso que eu gosto, porque não é tecnologia aparecendo. É tecnologia tirando do ser humano uma decisão que o ser humano erra de vez em quando. Em TI a gente chama isso de remover o botão do caminho em vez de culpar quem apertou.

O resto do pacote

Carregador por indução para o celular e quatro saídas USB para carregamento. Na prática, acabou a briga por cabo no carro.

Sensores de estacionamento nos quatro lados, câmera de ré e câmera frontal, as duas com as linhas de manobra fixas e móveis. Isso muda o jogo mais do que parece: com um pouco de prática dá para estacionar olhando só a tela do multimídia, com tranquilidade.

Alerta de ponto cego e farol alto automático também estão aqui, e os dois eu uso sem pensar. O ponto cego vira aquele reflexo novo de olhar o retrovisor e já encontrar a luzinha acesa. O farol alto automático é daqueles recursos que você só percebe que existe quando anda num carro que não tem.

E agora a ressalva que eu preciso fazer, porque review bom é review que incomoda um pouco.

A ficha de equipamentos da versão fala em câmera multivisão 360. Só que 360 graus, para a maioria das pessoas, significa uma coisa específica: aquela imagem vista de cima, como se tivesse um drone pairando sobre o carro, montada pelo sistema a partir das câmeras. Essa imagem o meu carro não mostra.

O que ele faz é alternar entre ângulos de câmera. É útil, ajuda bastante na manobra, mas não é o que a palavra 360 promete. É um daqueles casos em que o nome do recurso entrega mais do que o recurso.

Se alguém que tem a mesma versão e estiver vendo a visão de cima aí, me ensina como fazer, nos comentários…

Agora a parte chata: os dois defeitos

Review honesto conta o que incomoda. E eu tive dois problemas, os dois eletrônicos.

O multimídia que fica mudo. Abrir a porta liga o kit multimídia, mesmo sem dar partida. Se você fechar a porta, entrar de novo e aí der a partida, o multimídia fica sem som. Nada de rádio, nada de Bluetooth. Só volta depois de segurar o botão de power por cinco segundos e reiniciar. Reiniciar o multimídia do carro, em 2026, como quem reinicia um roteador.

O start/stop que não religa. Parado no semáforo, o motor desliga. Tiro o pé do freio ou mexo no volante e ele não volta. Aperto o botão de liga e desliga e nada. A sequência que resolve é abrir a porta, fechar a porta, e aí o botão volta a funcionar e o motor pega.

Parar num semáforo e o carro não religar não é inconveniente. É insegurança.

E aqui vem a parte que eu só descobri pesquisando: isso não é azar meu. Nas reclamações públicas de proprietários do Kardian, as queixas elétricas aparecem em primeiro lugar, e as duas campeãs são exatamente essas: central multimídia travando ou apagando, e start/stop desligando o motor sem religar, com bateria descarregando antes da hora. É padrão, não exceção.

O que a concessionária disse na revisão dos 10 mil

Reportei os dois.

No multimídia, disseram que atualizaram o software. Vamos acompanhar, porque atualização de software é exatamente o tipo de coisa que resolveria o problema.

No start/stop, fizeram diagnóstico e concluíram que a bateria do veículo tem defeito de fábrica. Só que, para abrir o chamado de garantia da bateria, eu preciso levar o carro outro dia, porque fui num sábado.

Confesso que achei migué. Mas a garantia cobre, então o custo é só o meu tempo. Outro dia eu levo lá e abro o chamado. Depois eu conto se resolveu.

O veredito, por enquanto

O pacote ADAS vale cada centavo, e eu digo isso com a autoridade de quem viu funcionar com um motociclista na frente. A automação do freio de mão é daquelas coisas pequenas que melhoram o dia. As câmeras e sensores resolvem.

O espelhamento é sem fio, Android Auto e CarPlay, e isso resolve uma chatice diária: você entra, o celular conecta sozinho, sem cabo e sem ritual. E tem a iluminação ambiente, que é personalizável por cor. Ou seja: o carro tem RGB. Quem já montou PC sabe que isso garante mais potência, e eu não aceito discussão sobre o assunto kkkkkkkkcry.

Os problemas que eu tive não são mecânicos. São de software e de elétrica. E isso diz muito sobre o carro moderno: ele virou um computador sobre rodas, mas a oficina ainda não virou TI. Diagnóstico de software na concessionária ainda é “atualizamos e vamos ver”, que é o equivalente automotivo do “já tentou reiniciar?”.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado