Camada Zero Tecnologia

Saber um pouco de tudo me tornou tradutor. E quase me tornou um faz-tudo

Faça um teste mental. Liste os setores da sua empresa e marque quais deles precisam falar com todos os outros no mesmo dia.

Comercial fala com operação e financeiro. Fiscal fala com financeiro e contabilidade. RH fala com todo mundo, mas em outro assunto.

E aí tem a TI, que fala com os seis ao mesmo tempo, sobre o assunto de cada um, antes das 9h.

Isso não é sorte nem virtude. É consequência do trabalho. E vem com uma vantagem enorme e uma armadilha que quase ninguém percebe enquanto está caindo nela.

Por que a gente aprende um pouco de tudo

Não é curiosidade. É necessidade.

Você não integra um sistema de faturamento sem entender o básico de fiscal. Não mexe em roteirizador sem entender como a operação monta a viagem. Não faz um relatório de custo que preste sem entender o plano de contas. Não conversa com jurídico sobre contrato de fornecedor sem entender o que é SLA de verdade.

Ninguém pediu isso no seu currículo. A vida pediu.

Com o tempo, você acorda sabendo um pouco de fiscal, um pouco de operação, um pouco de custo, um pouco de compras, um pouco de jurídico. Nada em profundidade. Mas o suficiente para conversar com todos eles sem precisar de intérprete.

Onde está o valor: ser tradutor

Esse “um pouco de tudo” tem um nome, e não é generalista. Eu chamo de tradutor.

O comercial diz “o sistema está lento”. A operação diz “o sistema está lento”. O financeiro diz “o sistema está lento”. São três frases idênticas descrevendo três problemas diferentes: uma consulta pesada no fechamento, um link de filial saturado e uma pessoa que aprendeu a usar a tela errada.

Quem consegue ouvir a mesma frase e separar os três problemas economiza tempo da empresa. Esse trabalho é invisível e vale muito mais do que aparece no organograma.

Traduzir também funciona no sentido contrário, e esse é o mais difícil. Explicar para a diretoria por que um projeto de infraestrutura sem entrega visível é urgente exige traduzir risco técnico em consequência de negócio. Quem não faz essa tradução vê o orçamento ir para o projeto que tem tela bonita.

Onde está a armadilha: virar o faz-tudo

A armadilha nasce do mesmo lugar. Porque você entende de tudo um pouco, você vira o caminho mais curto de todo mundo.

E caminho curto, uma vez descoberto, nunca mais é abandonado. Tá aí os trieiros no meio dos gramados que não me deixam mentir! 😄

Os sinais são fáceis de reconhecer quando você para para olhar:

  • Te chamam para assuntos que não têm relação nenhuma com tecnologia, só porque você “resolve”.
  • Existem processos na empresa que só andam quando você está online.
  • Sua agenda é feita pelos outros.
  • Você começou a ouvir “só você sabe fazer isso”. E, pior, ficou lisonjeado.

Esse último é o mais perigoso. “Só você sabe fazer isso” não é elogio, é laudo de risco. É a mesma frase que a gente usa para justificar por que um servidor legado não pode ser desligado.

A conta que ninguém faz

O custo de virar faz-tudo não é o seu tempo. Tempo é o que aparece.

O custo real é duplo. Primeiro, o que você deixou de fazer: enquanto você resolve o atalho de outra área, o projeto que só você poderia conduzir não anda. Segundo, e mais grave: enquanto você é o atalho, a outra área não desenvolve a competência. Você não está ajudando. Está adiando o aprendizado dela e criando dependência.

Isso vale em dobro para quem lidera. Um gestor que vira faz-tudo não sobrecarrega só a si mesmo. Ele vira gargalo de um time inteiro que fica esperando ele se desocupar.

Como sair disso sem virar o chato

Não é dizendo não para tudo. Isso mata a vantagem junto com o problema, e a vantagem é grande demais para jogar fora.

O que funciona, na minha experiência:

  1. Diga sim para o problema e não para a tarefa. “Eu te ajudo a entender o que está acontecendo. Quem executa é a área X, e eu falo com eles junto com você.”
  2. Devolva o dono, sempre. Toda vez que um pedido chega sem dono, ele fica com quem atendeu. Nomeie o dono na primeira resposta.
  3. Faça a tradução em público. Responda no canal da área, não no privado. Conversa no privado cria dependência; no canal, cria repertório para os outros.
  4. Documente o atalho e depois mate o atalho. Se você fez três vezes, escreva como se faz e entregue para quem é do processo.
  5. Trate “só você sabe” como incidente. Marque na sua lista. Se você sumir uma semana e algo para, aquilo não é elogio, é um ponto único de falha com endereço e CPF.

Fica o conselho

Generalista não é quem faz tudo. É quem entende o suficiente para conectar quem faz.

A diferença entre as duas coisas é a única que decide se o seu “um pouco de tudo” vira carreira ou vira sobrecarga.

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